quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Culto ao pobre "cult"


É incrível como gostamos de ver a pobreza. Até mesmo eu que sou um rapaz tão sub-desenvolvido e destinado à viajar sempre do lado do ônibus onde bate sol confesso que sou assim. Mas não basta a que vemos no dia-a-dia pelas ruas de qualquer cidadezinha, nós procuramos cada vez mais olhar nos olhos da miséria, viramos espectadores do sofrimento alheio, com pacotes super size de pipoca, no conforto de salas de cinema, ou em nossas casas com cópias de DVD (mesmo que sejam piratas), ou no pay-per-view.

O cinema nacional encontrou uma nova fonte de água fresca. Como não temos mais o Regime Militar para a produção de filmes que mostrem planos secretos e mirabolantes para seqüestrar embaixadores, ficamos agora apenas com a pobreza das favelas.

Os brasileiros, mesmo os que vivem mais distantes dos grandes centros urbanos onde se concentram essas "comunidades", estão se tornando cada vez mais especialistas em favelas. Todo mundo sabe o que é um X9, e sabe também que eu não tô di caô. Depois de Cidade de Deus e Carandiru, a cinematografia nacional pôde respirar e passou a bombardear a sociedade com produções que mostram a violência e o tal cotidiano das periferias. Só nesses próximos meses chegarão aos cinemas mais uns três filmes desse gênero.

Como verdadeiros antropólogos, os produtores (ou escritores de novelas que não deram certo) invadem as vielas do Morrão com suas câmeras e filmam como eles acham que é a vida dessas pessoas, e se vangloriam como se estivessem descobrindo e mostrando ao público aquilo que já é público.

E nós, o que fazemos? Vamos aos cinemas maravilhosos, onde esses filmes tidos como cult ficam em cartaz, comemos nossa pipoca super-faturada, aproveitamos esse momento de lazer sádico e ao final seguimos com nossa vida da forma mais natural, só que agora conhecendo melhor as engrenagens da violência e da pobreza (e podendo chamar nosso amigo de 'vacilão'). Uhúl!
Os personagens da telona ficam na película e os personagens da vida real estampam as páginas policiais.

2 comentários:

Marcelo disse...

Perfeita a análise, Edu. E o mais interessante disso tudo é que nossos cienastas são, no geral, filhos dos "donos do Brasil", que sobem os morros filmando a pobreza para mostrar para a classe média; E assim fomenta-se a tal "culpa social": se ô país é uma merda, a culpa é sua e do seu big mac, mermão.
Nó passamos da "estética da fome" para a "estética da violência" em um pulo. Outro dia li em algum lugar um cineasta brasileiro contando que um colega seu, crítico de cinema americano, havia dito que o Brasil precisava arrumar cineastas melhores pq, vendo a nossa produção, qualquer um tem a impressão de que a única coisa que temos é a violência, a pobreza, etc.
Sendo menos cult, isso me lembra um episódio da "Diarista" em que um cineasta resolvia fazer um documentário sobre a vida dela - de pobre - e se lamentava quando deparava com situações que atrapalhavam a narrativa, como, por exemplo, o fato de ela ter chuveiro elétrico. Rs.
Só acho interessante dizer que quem tem fetiche pela pobreza somos nós, e não os pobres. Os pobres só querem é uma vida melhor. O joãozinho Trinta tem uma ótima frase que é mais ou menos assim: "eu gosto é de luxo. Quem gosta de pobreza é intelectual."

P.S: quem disse isso foi o Joãozinho verdadeiro, e não o Debret, rs.

Marcelo disse...

vê se atualiza, meu rei...